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Onde anda o Salão de Abril?


O artista plástico Mário Baratta, na abertura do II Salão de Abril, em 1946, disse: “nossas mostras de arte tem sempre mais fim educativo que interesses econômicos”.

Mais de cinqüenta anos depois, essa afirmação poderia ser repetida na abertura da próxima edição do Salão de Abril com uma ressalva: Hoje, nossas mostras de arte (no caso o Salão de Abril) não têm interesses econômicos nem educativos. Parece-me que, na verdade, a preocupação da Prefeitura de Fortaleza, órgão responsável pela realização da mostra, é apenas mantê-lo vivo ou adiar por mais alguns anos o seu fim.

Apesar de, indiscutivelmente, ser o mais importante e creio o único acontecimento na área das artes plásticas promovido pela Prefeitura de Fortaleza, o Salão de Abril ainda é tratado de uma forma provincianamente amadora. É visível o enorme esforço dos curadores do Salão para fazerem uma mostra, no mínimo, digna. Parece, entretanto, que os responsáveis maiores pelo planejamento das ações da Prefeitura não sabem que é impossível fazer um salão sem apoio e recursos. Fazer uma exposição não é apenas colocar numa parede um quadro ao lado do outro. Requer pessoal treinado para manipular as obras, espaço seguro para guardá-las, iluminação adequada, conforto ambiental, e, o mais importante, uma idéia na cabeça. Uma exposição deve ser um discurso do curador e dos críticos que fizeram a seleção das obras. A mostra tem que dizer alguma coisa. Embora se pense o contrário, uma mostra de arte para ser bem realizada necessita de muito tempo de trabalho.

Também não podemos esquecer uma boa estrutura de marketing. É necessário despertar no público o interesse de visitar a exposição. Os artistas também devem estar motivados em participar da mostra. E isso somente se consegue através de uma bem elaborada campanha.

O que foi escrito até aqui, foi escrito com poucas variações nas páginas do jornal O Povo, em 16 de março de 1997. E os problemas, hoje, são os mesmos. Estamos a menos de um mês da data do aniversário da cidade, tradicionalmente data de abertura da mostra, e nenhuma movimentação foi realizada no sentido da realização do Salão de Abril, que no ano passado aconteceu em agosto, com pouca ou nenhuma repercussão. Isso significa que a administração municipal de Fortaleza continua não dando a mínima importância ao Salão de Abril.

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Salão de Abril: ainda o importante caminho da arte cearense.


A partir do final do século XX, começavam a surgir críticas ao caráter competitivo dos salões de Arte no Brasil. Eles que por muito tempo foram a maior vitrine para mostrar a produção dos artistas de várias gerações; além de ser a trajetória mais viável para se construir uma carreira com projeção nacional e para alguns era o caminho mais curto, para alcançar o objetivo de ser convidado para participar da Bienal Internacional de São Paulo.

Não é raro encontramos os que passaram a defender a extinção dos salões, afirmando que já não satisfazem mais aos anseios de muitos artistas, não correspondem e nem se adequam mais à realidade das propostas artísticas, e por isso estão ultrapassados. Mesmo assim eles têm resistido aos seus críticos e a cada edição continuam atraindo centenas de concorrentes nos diversos centros, como no Salão da Bahia, Salão do Paraná, Salão de Goiás, Salão do Pará, o próprio Salão de Abril, vários no interior de São Paulo, entre outros pelo País inteiro.

As características desses salões variam de acordo com cada realidade. Na nossa região, onde inegavelmente enfrentamos muitas dificuldades, com as poucas oportunidades para os que trabalham com arte, geradas pela escassez de ofertas nas áreas de formação (somente a partir do ano de 2000 é que surgem duas escolas de ensino superior com cursos voltados para as artes visuais), informações, poucos centros culturais, espaços para exposições, crítica, mercado de arte, além de publicações especializadas na área.

Levando-se em conta todas as nossas carências, temos o Salão de Abril como uma das poucas alternativas para expor a nossa produção.  Pois desde a sua criação até o presente momento, tornou-se o mais importante canal de projeção e divulgação dos nossos artistas, o que acentua significativamente a sua importância para as artes plásticas cearenses, estendendo-se além do fato de ter sido um dos primeiros Salões de Arte a surgir no Brasil.

Dos mais destacados nomes da nossa terra, como Raimundo Cela, Antônio Bandeira, Aldemir Martins, Sérvulo Esmeraldo, José Tarcísio, entre tantos outros que o curto espaço não permite citá-los, iniciaram sua trajetória tendo o salão de Abril como ponto de partida. Até os que procuram ingressar na carreira de artista plástico ainda hoje, buscam a sua afirmação em nosso circuito artístico através desta significativa mostra.

Por tudo isso, é necessário reconhecermos e ratificarmos a real importância do Salão de Abril, procurando fortalecê-lo cada vez mais, adequando-o aos novos tempos, para que possa contribuir de formas mais efetiva, e que continue prestando este importante serviço à comunidade artística: o de revelar novos talentos e ainda continuar estimulando aos artistas já consagrados a participarem de suas futuras edições.

Sebastião de Paula.

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FUTURO COMPLETA 100 ANOS


Pintura de Carlo Carrà

Pintura de Carlo Carrà

Russolo e seu instrumento musical

Russolo e seu instrumento musical

Pintura de Balla

Pintura de Balla

Desenho arquitetônico de Sant'Elia de 1914
Desenho arquitetônico de Sant

 

Em 20 de fevereiro de 1909 o jornal francês Le Figaro publicou o manifesto futurista de Marinetti. Cem anos depois o que sobrou da festa? Para as artes plásticas Balla, Boccioni, Carra; Antônio Sant’Elia, na arquitetura; Russolo na música e alguns outros artistas indiscutivelmente com seus nomes firmados na história do século XX.

Foi um movimento que arregimentou artistas jovens de todo o mundo, inclusive do Brasil. Não se pode negar a sua influência nas idéias que impulsionaram a Semana de 1922, em São Paulo. Oswald de Andrade por certo, em princípio, foi muito influenciado pelos futuristas. No Ceará os primeiro ventos das artes modernistas também tiveram inspiração no futurismo.

A idéia central do futurismo era criar um homem novo. Com o passar do tempo ficou a lembrança da ironia e dos escândalos. A aproximação de Marinetti com o governo de Mussolini, por certo, muito contribuiu para apagar das lembranças a força criativa e a importância do movimento.

Além das influências nos movimentos artísticos posteriores, na arquitetura ficou a sombra da marca visionária de Antônio Sant’Elia. E também ficaram algumas palavras de ordem que escutadas hoje fazem pensar: “Um carro é mais bonito que a Victória de Samotracia”.

DADOS SOBRE ALGUNS FUTURISTAS

Felippo Tommaso Marinetti (Alexandria (Egito), 1876 –Bellagio, 1944) Foi um dos criadores do futurismo – a primeira vanguarda histórica do século XX. Filho de um rico comerciante, fez seus estudos em sua cidade natal, e também em Paris, Pádua e Gênova, onde se formou em Direito e viveu muito tempo. Suas primeiras obras foram poemas que escreveu para revistas literárias e, mais tarde. para sua própria revista – Poesia. Publicou no jornal Le Figaro (1909), de Paris, o manifesto futurista em que mostrou sua oposição às fórmulas tradicionais e acadêmicas, expondo a necessidade de abandonar as velhas fórmulas e criar uma arte livre e anárquica, capaz de expressar o dinamismo e a energia da moderna sociedade industrial, que é considerado o texto fundador do movimento futurista. O manifesto indicava que as artes deveriam demolir o passado e tudo o mais que significasse tradição, e celebrava a velocidade, a era mecânica a eletricidade, o dinamismo, a guerra. Entre obras teatrais, romances e textos ideológicos da autoria de Marinetti, cdestacam-se Le Roi bombance (1909), Mafarka le

Umberto Boccioni (Reggio di Calabria, 1882 – Verona, 1916) É talvez o mais célebre artista dos artistas do futurismo. Estudou em Paris, e depois em Veneza, na Academia de Belas Artes. Realizou atividades de ilustrador e produtor de cartazes. Foi aluno de Giacomo Balla, também integrante do movimento futurista. Boccioni começa a realizar esculturas a partir de 1912. A maioria de suas obras eram realizadas em gesso, e muitas foram destruídas. A sua escultura Formas Únicas de Continuidade no Espaço é um marco do movimento futurista. Publicou diversos textos sobre a estética Futurista, onde destaca-se o livro Pittura Scultura Futuriste, que concentra todo o ideário artístico do movimento, escrito em 1914.

Luigi Russolo (Portogruaro, 1885 – Varese, 1947)  Pintor e compositor. Em 11 de Março de 1913 publicou o tratado A Arte de ruídos (L’arte dei rumori). É considerado o primeiro teórico da música eletrônica. Russolo inventou e construiu instrumentos incluindo intonarumori ( “intoners” ou “ruído de máquinas”), para criar “ruídos” de desempenho. Infelizmente, nenhum de seus originais intonarumori sobreviveu a Segunda Guerra Mundial. Para homenagear a memória do compositor a Fundação de Varese, instituiu uma competição internacional anual para a composição musical electro-acústico. O Prémio Luigi Russolo de música eletro-acústica é um dos mais prestigiados da Europa.

Carlo Carrá (Quargnento, 1881 – Milão, 1966) Pintor. De 1906 a 1908, estudou na Academia de Belas Artes de Brera. Foi nesse período que ele conheceu Umberto Boccioni e, juntos, animados pelas idéias de Marinetti, elaboram em conjunto com Russolo, Balla e Severini o movimento Futurista com manifesto técnico em 1910. Sua interpretação pessoal dos conceitos futuristas de simultaneidade e dinamismo apresenta, nas telas de 1911 a 1913, recortes e rebatimentos de vários planos sobre vários eixos. Em 1914, realizou algumas colagens e começou a afastar-se do futurismo

Giacomo Balla (Turim, 1871 – Roma, 1958) Em 1909, conheceu Marinetti, Boccioni e Severini. Em 1910, junta-se a eles para assinar o Manifesto Técnico da Pintura Futurista. Preocupado, como seus companheiros, em encontrar uma maneira de visualizar as teorias do movimento, apresentou em 1912 seu primeiro quadro futurista intitulado Cão na Coleira ou Cão Atrelado. Dissolvido o movimento, Balla retornou às suas pinturas realistas e voltou-se para a cenografia.

Gino Severini (Cortona, 1883 – Paris, 1966) Pintor.  Em 1900 conheceu Boccioni e juntos, visitaram o ateliê de Giacomo BallA onde foram introduzidas à técnica do Divisionismo, pintura com divisões e quebrar nas superfícies pintadas com pontos e listras.  As idéias do Divisionismo tiveram grande influência sobre Severini do início do trabalho e na pintura futurista entre 1910-1911. Foi um importante elo entre os artistas da França e da Itália.  Severini ajudou a organizar a primeira exposição futurista fora de Itália, em Paris, em 1912 e participou nas subsequentes mostras futuristas na Europa e nos Estados Unidos.

Antonio Sant’Elia (Como, 1888- Monfalcone, 1916) Foi o seu principal arquiteto do Futurismo e divulgador. Em 1912, e produziu desenhos de grande impacto da sua Cidade Nova, com escala monumental de megalópoles com arranha-céus, passarelas e vias suspensas para veículos. Estes são aspectos reveladores da crescente actividade industrial e do aparecimento de novas tecnologias e materiais, utilizados nos seus discursos e desenhos. As suas obras influenciaram arquitectos contemporâneos e anteciparam as cidades e o urbanismo modernos com planos das edificações que recuam conforme ganham altura, possibilitando a iluminação das vias térreas e a circulação do ar. As cidades, com a sua elevada densidade populacional, procuravam ordenamento consoante o seu crescimento. Apesar do seu grande número de trabalhos, Sant’Elia não conseguiu concretizar nenhum dos seus projectos, tendo sido morto em combate durante a Primeira Guerra Mundial.

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A Arte de Sérgio Lima


As artes no Brasil sofrem de um vício que nos foi imposto no tempo de colônia e perdura na mente de muitos. Criadores e críticos são levados a acreditar que a produção artística local somente é significativa se acompanha a última tendência ou modas surgidas nos centros culturais europeus. Por isso, na procura por entender os nossos artistas somos “naturalmente” levados a buscar categorias artísticas desenvolvidas na Europa para enquadra-los. Essa atitude revela a aceitação, por princípio, de nossa incapacidade de criar coisas efetivamente livres dos padrões estabelecidos, e conseqüentemente novas, levando-nos a crer que o sol da criatividade sempre nasce além do nosso horizonte. Essa rápida contextualização é para fazer entender por que temos dificuldade por classificar a produção mais recente de Sergio Lima.

Sérgio não se deixa amarrar por imposições, mesmo ideologicamente sutis. Sérgio é um criador livre, independente de tendências, jamais procura se enquadrar. Mas esse não enquadramento não é rebeldia, não é negação. Sérgio simplesmente pensa, cria, propõe, diz coisas através de formas, tons, riscos e texturas: faz arte. Pesquisa e descobre, inventa, apropria-se de imagens, materiais e suportes na sua elaboração artística. Constrói seus instrumentos, traça seus caminhos e é sujeito de sua história.
Jogando com transparências, cores opacas, efeitos óticos, texturas e sentimentos táteis; empregando suporte e materiais fora do padrão (verdadeiras descobertas), Sérgio Lima constrói sem as amarras e rigores dos construtivistas, elaboradas obras visuais de delicada expressividade poética, composição sofisticada, profundo senso estético, onde facilmente se pode perceber o alto nível de autonomia e maturidade que o artista atingiu nos Embrulhos e Envelopes, sua obra contemporânea

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Artes Visuais no Ceará: Um olhar oblíquo


Quando se lança um olhar sobre a história das artes no Ceará, fácil é perceber a existência de pontos sombreados pelo esquecimento. Os séculos anteriores ao século XX estão na quase total escuridão. E mesmo no século passado, o único período onde encontramos estudos aclaradores é o tempo em que surgem as manifestações iniciais do modernismo na cidade de Fortaleza: a década de 1940, um pouco mais pra cá ou pra lá.

Além dessa constatação, pode-se perceber também um apartamento segregacionista e excludente; uma espécie de cisão entre as produções artísticas de dois pólos principais: uma girando em torno dos valores estéticos de raízes espontâneas, geralmente entendidas como “artes populares” ou “artesanatos”; outro apoiado nas tradições estético/culturais de origem européia, cujas produções são denominadas simplesmente de arte, sem adjetivos, isso querendo significar ou forçar o entendimento de que elas sejam mais verdadeiramente arte.

Apesar dos primeiros modernistas brasileiros, Mario de Andrade e Cia, terem manifestado interesse pela expressão estética popular, essa polarização da produção artística explicita-se melhor na segunda metade do século XX, creio em virtude dos avanços dos estudos sociais no Brasil, quando, seguindo tendências internacionais, desenvolvem-se olhares mais perscrutadores sobre o comportamento das camadas menos aquinhoadas economicamente.

O certo é que as produções artísticas de cada pólo raramente são colocadas lado a lado e mais raramente ainda se misturam. Quase impossível se comentar produções populares e eruditas como manifestações de uma mesma cultura. Raro é se buscar ver os valores que as podem unir e, menos ainda, o que verdadeiramente as unem, como manifestações de um mesmo povo.

Mesmo sabendo que esta divisão reflete interesses e posicionamentos políticos não artísticos, que essas diferenças são apenas resultado das desigualdades sociais e manifestações do estágio em que se encontram as lutas pela imposição de valores estéticos, temos que reconhecer que é um grande desafio eliminar as barreiras, apesar de falsas, entre popular e erudito, permitindo os hibridismos, abrindo espaços para o reconhecimento de produções geralmente excluídas.

Acreditamos que a divisão em grupos, pólos ou tendência que atualmente se pratica não satisfaz, não consegue apreender a realidade das artes visuais cearenses em sua dinâmica.

Para fazer frente a essa situação, devemos ter em mente que todos os grupos e indivíduos possuem o direito de expressarem-se de modo independente; que inexistem modos expressivos universais e que é inaceitável qualquer tipo de avaliação que estabeleça superioridades entre manifestações culturais. Somos obrigados pela realidade dos fatos a aceitar a produção visual cearense como algo vivo que se junta, separa, aproxima, afasta, interfere, influencia e é influenciada. Por que não aceitar a multiplicidade de estilos, maneiras e posições de expressar-se de modo horizontal, sem hierarquias? É o que tentaremos fazer neste texto.

NOVAS CATEGORIAS DE ENTENDIMENTO

Vemos como um só corpo poliédrico a produção plástico/visual desenvolvida no Ceará. Um poliedro com faces de aparências distintas. Mas, faces de um mesmo sólido constituído pela cultura da região. Artesanato, design, arte tradicionais ou experimentais são manifestações visíveis deste sólido que é a cultura cearense.

Assim pensando, procuramos estabelecer novas categorias que acreditamos mais apropriadas para o entendimento de nossa produção artística. Nestas categorias buscamos reunir algumas tendências estéticas ou manifestações estilísticas que compõem o corpo das artes visuais cearenses. Indiscutivelmente, essas categorias não são as únicas, nem as mais claras e perceptíveis. Elas têm aproximações entre si, com fronteiras, por vezes, pouco definidas, mas nada que impossibilite, desqualifique ou prejudique a sua percepção ou entendimento. Apesar dos hibridismos, é possível destacar as tendências que acreditamos as mais significativas, que melhor ajudam a entender a produção artística no Ceará:

a) Classicismo Ingênuo
Existe uma vertente, talvez a mais disseminada, que busca a representação do real dentro dos valores clássicos, que entende os fazeres artísticos como um exercício de registro da realidade aparente. Para esse grupo a arte se encontra na capacidade de representar o visível dentro de estruturas harmônicas. É um entendimento da arte como instrumento capaz de desvelar o real, de apreender o olhar, de registrar perfeitamente um momento, um sonho, uma visão por sua beleza, unicidade ou importância. Essa produção, no geral, reflete na sua realização as deficiências da formação dos nossos artistas, em sua maioria autodidatas, aparentando um ingênuo anacronismo.

Esse entendimento da arte tem suas raízes na segunda metade do século XIX, quando muitos artistas/fotógrafos e pintores percorreram os mais distantes rincões do Brasil na tentativa de registro de paisagens exóticas e na realização de retratos, e trouxeram valores estéticos dominados pelas idéias do movimento neo-clássico europeu. Mesmo sem uma pesquisa realizada, pode-se perceber que essas idéias ainda perduram, talvez até como visão hegemônica, em senso comum, em todas as regiões do Estado.

Nota-se, porém, que nos últimos tempos, a confecção de retratos de autoridades e personalidades socialmente importantes tem perdido espaço na produção artística, talvez pelo seu desuso nas decorações residenciais e mesmo nas ambientações dos espaços públicos oficiais. Todavia, as paisagens, registros do real ou da fantasia, continuam muito valorizadas e bem aceitas pelo público das artes, tanto na capital como no interior do Estado.

Merecem destaque nessa vertente os registros da vegetação serrana de Francisco Wagner e as paisagens e os pássaros de Lucivaldo, ambos de Pacoti; as paisagens de Antônio Anjo e Janjão, de Guaiúba; as cenas históricas da formação de Juazeiro, registradas por Assunção Gonçalves, e as paisagens da chapada, imaginadas por Luis Karimai, os dois de Juazeiro do Norte; Isidoro, Walker e Roberto Dias, de Quixadá; isso sem falar de Tarcísio Felix, de Fortaleza, para citar apenas alguns entre muitos que podem ser enquadrados nesse modo de compreender e fazer arte.

b) Expressionismo Fantasioso
Outro segmento significativo é o que reúne a produção de artistas que buscam expressar-se através de um simbolismo representacional que não se prende aos valores e normas que nos foram apresentadas ou impostas pelos europeus. E que em nosso subdesenvolvimento cultural buscamos entender e valorizar através de aproximações com as idéias dos movimentos expressionistas ou surrealistas europeus, mas que no real não têm relação alguma.

São expressões muito mais ligadas às energias interiores ou espirituais que a movimentos ou correntes artísticas intelectuais. Muito pelo contrário, provavelmente as soluções estéticas obtidas por esses movimentos na Europa, por certo são racionalizações obtidas com o contato com manifestações artísticas de fora deste continente. Na verdade, devemos buscar similaridades dessa expressividade, encontrada principalmente na produção visual das camadas sociais com menos recursos econômicos, nas produções artísticas de povos não europeus. Mais próximas estão as manifestações artísticas africanas e indígenas.
Nesse mesmo segmento existe também uma forte tendência que pode ser entendida como fantástica, numa busca da apreensão do fantasioso que caracteriza, de forma marcante, o universo intelectual do povo cearense. Essas tendências expressivo/fantasiosas são forma de manifestação figurativa quase espontânea e muito desenvolvida entre os jovens das regiões mais urbanizadas.

Como exemplo desse tipo de produção podem ser citados os escultores Manuel Graciano, Janjão, Celestino; os xilógrafos Stênio Diniz e Nilo; a ceramista Cícera, todos do Cariri, região onde essa tendência se manifesta com mais força. Em Fortaleza, nesse gênero destacaríamos o xilógrafo Sebastião de Paula, de origem interiorana.

c) Construtivismo Geométrico
Com uma certa facilidade também pode ser percebida nas artes visuais do Ceará uma tendência geométrica, um construtivismo simples e econômico, que curiosamente se manifesta em vários pontos do Estado e em variadas produções estéticas. Ela está explícita nas malas de madeira revestidas de papel pintado, nos desenhos decorativos em carrocerias de caminhões e em algumas pinturas de elementos da estética popular encontradas nos pequenos circos, parques de diversões e quermesses; no tacheado dos baús, nas costuras e pespontos dos trabalhos de selaria e nos gibões e calçados de vaqueiros; em alguns elementos decorativos das cerâmicas de tradição indígena e na arquitetura de origem popular.

Outra face dessa geometria também pode ser percebida, neste caso apenas nas estruturas das composições, nas rendas, bordados, labirintos e filés.

Mas não é somente no meio popular onde essa tendência se faz presente. Ela também se manifesta no meio erudito, principalmente na escultura realizada em chapas de metal e na pintura, onde as influências das artes abstratas de origem européia encontram sintonia em alguns pontos com as bases da cultura tradicional resultando uma produção que obteve inequívoco reconhecimento social. Na vertente erudita merecem destaque pelos significativos resultados obtidos nas suas produções artísticas de caráter construtivo geométrico o escultor Sérvulo Esmeraldo, a pintora Heloysa Juaçaba e o xilógrafo Nauer Spíndola.

d) Globalismo tecnológico
Outro segmento forte nas artes visuais cearenses não é uma tendência estilística. É o resultado de um posicionamento cultural que se manifesta no acompanhamento e imediata absorção dos repertórios estéticos desenvolvidos pelos artistas dos pólos geradores da cultura das nações economicamente hegemônicas. Essa busca de sintonia com as tendências internacionais gera uma produção artística sofisticada, pouco alinhada com as aspirações de grande parte da população cearense, utilizando-se por vezes de mídias e suportes tecnologicamente avançados, provocando um distanciamento entre o que é desenvolvido pelos artistas e a capacidade de entendimento e consumo da produção, pelo povo.

Eclética, essa produção não mantém um padrão único, pelo contrário é plural e fragmentada tanto nos estilos, técnicas, como nas formas de apresentação. O importante é a sintonia com as mais novas tendências internacionais.

Os grupos de produtores mais ligados a essas propostas internacionalistas são compostos por artistas jovens oriundos das escolas superiores de artes visuais e em sua quase totalidade encontram-se situados na capital do Estado. Interessante perceber que, apesar de nossa defasagem tecnológica em relação aos centros hegemônicos, essas manifestações têm em nosso estado um nível semelhante à produção internacional.

A qualidade de nossa produção visual, se significante ou não, somente será percebida depois, na história.

* Roberto Galvão é artista plástico, mestre em História Social, pela UFC.

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Picasso agora é clássico.


Uma novidade na arte ou no modo de entender arte ou de pensar a história da arte e suas divisões temporais. De 25 de fevereiro a 7 de junho de 2009 a National Gallery, de Londres, estará mostrando uma exposição de Picasso. O estranhamento é provocado porque a National Gallery é o lugar onde se alberga a arte clássica. O lugar das artes mais contemporâneas é a Tate Modern.

A atitude dos ingleses é totalmente pertinente. O escândalo do cubismo, com suas desarticulações e desmontes das estruturas dos objetos ou personagens retratados, já completou mais de cem anos e já se pode dizer que foi completamente absorvido pela sociedade e está totalmente inserido nos processos acadêmicos de se fazer arte. É uma indicação que o tempo passa, as coisas mudam e que a pintura de Picasso já é ou pode ser entendida como clássica.

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Espetáculo prejudica entendimento da arte.


Os principais jornais do mundo noticiaram em primeira página o leilão da coleção de arte do estilista Yves Saint Laurent e do empresário Pierre Bergé, realizado em Paris nos dias 22, 23 e 24 de fevereiro, que bateu muitos recordes de vendas.

Apenas no primeiro dia, numa sessão com centenas de compradores de todo o mundo, as vendas chegaram aos 206 milhões de euros, ultrapassando o recorde anterior, que já durava 12 anos. O quadro de Matisse «Les coucous, tapis bleu et rose» foi vendido por 32 milhões de euros, recorde para pintura de artista frances. Uma escultura de Constantin Brancusi, rendeu 29 milhões de euros; um quadro de Piet Mondrian rendeu 19 milhões de euros e outro de James Ensor foi vendido por mais de 4 milhões de euros. O governo francês adquiriu um Giorgio de Chirico por quase 10 milhões de euros. Uma natureza morta de Picasso, que era apresentado como a grande obra do leilão, não atingiu o preço mínimo de 25 milhões, mas foi vendido por 21 milhões de euros. O leilão tinha ainda Duchamps, Gericoult, Ingres, Manet, Braque, Gauguin, Leger, Ensor. E mais antiguidades clássicas, inúmeras esculturas romanas em mámore, ourivesaria, mobiliário do século XVIII e moderno, especialmente peças Art Deco, formando um conjunto de 730 peças.

Ao veicular esse tipo de noticia em que a arte é tratada de modo espetacular, onde se destaca mais o valor financeiro que o valor artístico, colocando-a num patamar de inascessibilidade, por certo, prejudicando em muito, no senso comum, o entendimento dos processos de reconhecimento, valorização e importância da arte, os veículos de comunicação, geralmente, perdem um ótima oportunidade de ajudar na divulgação da arte, de discutir o que levou o mercado a pagar os preços atingidos, a falar sobre a importância artística e histórica das obras e do seu valor estético.

Essa espetacularização produz um sentimento de distanciamento que não é verdadeiro. Na verdade, existe arte para todos os níveis de poder aquisitivo e, embora não se noticie com destaque nos veículos de comunicação, ela é produzida com qualidade em todos os grupos sociais.

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TARCILA PELA PRIMEIRA VEZ EM MADRI


Tarsila do Amaral (Capivari 1886 – São Paulo 1973), uma das mais importantes e valorizadas artistas brasileiras, têm sua obra mostrada pela primeira vez em exposição individual em Madri. A mostra aberta no início de fevereiro deverá se prolongar até 3 de maio no prestigiado espaço da Fundação Juan March, na capital espanhola. Na coleção exposta, que reúne obras de varios museus internacionais, constam as mais expressivas obras de Tarcila: A Negra, Antropofagia, Autoretrato, Urutu, O pescador.

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A inteligência nos olhos


O mestre Jorge Coli, no jornal Folha de São Paulo de 15 de fevereiro, comenta a exposição Picasso e os Mestres que aconteceu nas salas do Grand Palais, em Paris. A mostra encerrada no início do mês foi um grande sucesso de público, mas não agradou a crítica que cobrou mais rigor na proposta curatorial que seria reunir, lado a lado, obras de Picasso e outros mestres para permitir ao público a percepção de semelhanças, aproximações e fazer suas comparações e avaliações. Coli diz que as pessoas olhavam fascinadas descobrindo que artistas diferentes tinham muito em comum e afirma que a mostra obrigava a ver.
“Toda a formação escolar está voltada para a escrita. Aprende-se a ler. Não se aprende a olhar. Muitos pensam que para ‘entender’ uma obra de arte é preciso devorar uma carrada de livros. De nada adianta sem o olhar que medita, analisa e busca compreender por si só”, comenta o colunista da Folha.
Na verdade são muitas as análises que devem ser feitas na busca do entendimento de uma obra visual. Um ponto inicial é perceber que nesse processo se deve fazer um esforço multidisciplinar envolvendo, no mínimo, três abordagens: uma através da crítica estética, outra através da teoria da linguagem visual e uma terceira através história da arte. Todas inter-relacionadas de modo inseparável e não necessariamente hierarquizadas. Isso sem falar em outras análises que levam em conta abordagens econômicas, políticas, sociais e da própria materialidade da peça em questão que, por certo, permeiam toda análise mais aprofundada.
As obras de arte permitem muitos tipos de leitura: leitura contextual: histórica, geográfica, social, econômica; leitura dos elementos plástico/formais: forma, equilíbrio, movimento, ritmo, proporção, tom, cor, textura, composição; leitura da qualidade técnica: adequação material e domínio do fazer; leitura dos elementos icônicos: apelo, mensagem, nível de representação; leitura do nível de coerência temática interna; leitura do teor de originalidade, do teor de funcionalidade, e leitura do compromisso com o tempo. Todavia, nenhuma leitura será possível sem um olhar perscrutador e inteligente.

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Novo Museu Dalí em Berlim


No dia 05 cinco de fevereiro foi inaugurado em Berlim, na Alemanha, mais um Museu em homenagem ao controvertido artista espanhol Salvador Dalí. No acervo exposto em Berlim encontramos pinturas, fotografias e esculturas. O Museu abriga 400 obras de Dalí que documentam toda a sua versatilidade de trabalhar com diversas linguagens e materiais, uma de suas principais características.
A expectativa dos organizadores é de que o museu receba 100 mil visitantes por ano. É um bom número de visitantes. Mais ou menos semelhante ao do Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar, que atingiu 106mil.                     

A ideia de se montar o Museu Dali de Berlim surgiu depois do grande êxito obtido em duas mostras de desenhos e gravuras realizadas de 2006 para cá. O Museu de 1400M2 localiza-se na Alexanderplatz, centro da cidade.

O Museu Dalí de Berlim terá úblico e os ingressos custarão 11 euros (cerca de R$ 32) e funcionará de segunda a sábado das 12h às 20h. Aos feriados a exposição abrirá das 10h às 20h.

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