Quando se lança um olhar sobre a história das artes no Ceará, fácil é perceber a existência de pontos sombreados pelo esquecimento. Os séculos anteriores ao século XX estão na quase total escuridão. E mesmo no século passado, o único período onde encontramos estudos aclaradores é o tempo em que surgem as manifestações iniciais do modernismo na cidade de Fortaleza: a década de 1940, um pouco mais pra cá ou pra lá.
Além dessa constatação, pode-se perceber também um apartamento segregacionista e excludente; uma espécie de cisão entre as produções artísticas de dois pólos principais: uma girando em torno dos valores estéticos de raízes espontâneas, geralmente entendidas como “artes populares” ou “artesanatos”; outro apoiado nas tradições estético/culturais de origem européia, cujas produções são denominadas simplesmente de arte, sem adjetivos, isso querendo significar ou forçar o entendimento de que elas sejam mais verdadeiramente arte.
Apesar dos primeiros modernistas brasileiros, Mario de Andrade e Cia, terem manifestado interesse pela expressão estética popular, essa polarização da produção artística explicita-se melhor na segunda metade do século XX, creio em virtude dos avanços dos estudos sociais no Brasil, quando, seguindo tendências internacionais, desenvolvem-se olhares mais perscrutadores sobre o comportamento das camadas menos aquinhoadas economicamente.
O certo é que as produções artísticas de cada pólo raramente são colocadas lado a lado e mais raramente ainda se misturam. Quase impossível se comentar produções populares e eruditas como manifestações de uma mesma cultura. Raro é se buscar ver os valores que as podem unir e, menos ainda, o que verdadeiramente as unem, como manifestações de um mesmo povo.
Mesmo sabendo que esta divisão reflete interesses e posicionamentos políticos não artísticos, que essas diferenças são apenas resultado das desigualdades sociais e manifestações do estágio em que se encontram as lutas pela imposição de valores estéticos, temos que reconhecer que é um grande desafio eliminar as barreiras, apesar de falsas, entre popular e erudito, permitindo os hibridismos, abrindo espaços para o reconhecimento de produções geralmente excluídas.
Acreditamos que a divisão em grupos, pólos ou tendência que atualmente se pratica não satisfaz, não consegue apreender a realidade das artes visuais cearenses em sua dinâmica.
Para fazer frente a essa situação, devemos ter em mente que todos os grupos e indivíduos possuem o direito de expressarem-se de modo independente; que inexistem modos expressivos universais e que é inaceitável qualquer tipo de avaliação que estabeleça superioridades entre manifestações culturais. Somos obrigados pela realidade dos fatos a aceitar a produção visual cearense como algo vivo que se junta, separa, aproxima, afasta, interfere, influencia e é influenciada. Por que não aceitar a multiplicidade de estilos, maneiras e posições de expressar-se de modo horizontal, sem hierarquias? É o que tentaremos fazer neste texto.
NOVAS CATEGORIAS DE ENTENDIMENTO
Vemos como um só corpo poliédrico a produção plástico/visual desenvolvida no Ceará. Um poliedro com faces de aparências distintas. Mas, faces de um mesmo sólido constituído pela cultura da região. Artesanato, design, arte tradicionais ou experimentais são manifestações visíveis deste sólido que é a cultura cearense.
Assim pensando, procuramos estabelecer novas categorias que acreditamos mais apropriadas para o entendimento de nossa produção artística. Nestas categorias buscamos reunir algumas tendências estéticas ou manifestações estilísticas que compõem o corpo das artes visuais cearenses. Indiscutivelmente, essas categorias não são as únicas, nem as mais claras e perceptíveis. Elas têm aproximações entre si, com fronteiras, por vezes, pouco definidas, mas nada que impossibilite, desqualifique ou prejudique a sua percepção ou entendimento. Apesar dos hibridismos, é possível destacar as tendências que acreditamos as mais significativas, que melhor ajudam a entender a produção artística no Ceará:
a) Classicismo Ingênuo
Existe uma vertente, talvez a mais disseminada, que busca a representação do real dentro dos valores clássicos, que entende os fazeres artísticos como um exercício de registro da realidade aparente. Para esse grupo a arte se encontra na capacidade de representar o visível dentro de estruturas harmônicas. É um entendimento da arte como instrumento capaz de desvelar o real, de apreender o olhar, de registrar perfeitamente um momento, um sonho, uma visão por sua beleza, unicidade ou importância. Essa produção, no geral, reflete na sua realização as deficiências da formação dos nossos artistas, em sua maioria autodidatas, aparentando um ingênuo anacronismo.
Esse entendimento da arte tem suas raízes na segunda metade do século XIX, quando muitos artistas/fotógrafos e pintores percorreram os mais distantes rincões do Brasil na tentativa de registro de paisagens exóticas e na realização de retratos, e trouxeram valores estéticos dominados pelas idéias do movimento neo-clássico europeu. Mesmo sem uma pesquisa realizada, pode-se perceber que essas idéias ainda perduram, talvez até como visão hegemônica, em senso comum, em todas as regiões do Estado.
Nota-se, porém, que nos últimos tempos, a confecção de retratos de autoridades e personalidades socialmente importantes tem perdido espaço na produção artística, talvez pelo seu desuso nas decorações residenciais e mesmo nas ambientações dos espaços públicos oficiais. Todavia, as paisagens, registros do real ou da fantasia, continuam muito valorizadas e bem aceitas pelo público das artes, tanto na capital como no interior do Estado.
Merecem destaque nessa vertente os registros da vegetação serrana de Francisco Wagner e as paisagens e os pássaros de Lucivaldo, ambos de Pacoti; as paisagens de Antônio Anjo e Janjão, de Guaiúba; as cenas históricas da formação de Juazeiro, registradas por Assunção Gonçalves, e as paisagens da chapada, imaginadas por Luis Karimai, os dois de Juazeiro do Norte; Isidoro, Walker e Roberto Dias, de Quixadá; isso sem falar de Tarcísio Felix, de Fortaleza, para citar apenas alguns entre muitos que podem ser enquadrados nesse modo de compreender e fazer arte.
b) Expressionismo Fantasioso
Outro segmento significativo é o que reúne a produção de artistas que buscam expressar-se através de um simbolismo representacional que não se prende aos valores e normas que nos foram apresentadas ou impostas pelos europeus. E que em nosso subdesenvolvimento cultural buscamos entender e valorizar através de aproximações com as idéias dos movimentos expressionistas ou surrealistas europeus, mas que no real não têm relação alguma.
São expressões muito mais ligadas às energias interiores ou espirituais que a movimentos ou correntes artísticas intelectuais. Muito pelo contrário, provavelmente as soluções estéticas obtidas por esses movimentos na Europa, por certo são racionalizações obtidas com o contato com manifestações artísticas de fora deste continente. Na verdade, devemos buscar similaridades dessa expressividade, encontrada principalmente na produção visual das camadas sociais com menos recursos econômicos, nas produções artísticas de povos não europeus. Mais próximas estão as manifestações artísticas africanas e indígenas.
Nesse mesmo segmento existe também uma forte tendência que pode ser entendida como fantástica, numa busca da apreensão do fantasioso que caracteriza, de forma marcante, o universo intelectual do povo cearense. Essas tendências expressivo/fantasiosas são forma de manifestação figurativa quase espontânea e muito desenvolvida entre os jovens das regiões mais urbanizadas.
Como exemplo desse tipo de produção podem ser citados os escultores Manuel Graciano, Janjão, Celestino; os xilógrafos Stênio Diniz e Nilo; a ceramista Cícera, todos do Cariri, região onde essa tendência se manifesta com mais força. Em Fortaleza, nesse gênero destacaríamos o xilógrafo Sebastião de Paula, de origem interiorana.
c) Construtivismo Geométrico
Com uma certa facilidade também pode ser percebida nas artes visuais do Ceará uma tendência geométrica, um construtivismo simples e econômico, que curiosamente se manifesta em vários pontos do Estado e em variadas produções estéticas. Ela está explícita nas malas de madeira revestidas de papel pintado, nos desenhos decorativos em carrocerias de caminhões e em algumas pinturas de elementos da estética popular encontradas nos pequenos circos, parques de diversões e quermesses; no tacheado dos baús, nas costuras e pespontos dos trabalhos de selaria e nos gibões e calçados de vaqueiros; em alguns elementos decorativos das cerâmicas de tradição indígena e na arquitetura de origem popular.
Outra face dessa geometria também pode ser percebida, neste caso apenas nas estruturas das composições, nas rendas, bordados, labirintos e filés.
Mas não é somente no meio popular onde essa tendência se faz presente. Ela também se manifesta no meio erudito, principalmente na escultura realizada em chapas de metal e na pintura, onde as influências das artes abstratas de origem européia encontram sintonia em alguns pontos com as bases da cultura tradicional resultando uma produção que obteve inequívoco reconhecimento social. Na vertente erudita merecem destaque pelos significativos resultados obtidos nas suas produções artísticas de caráter construtivo geométrico o escultor Sérvulo Esmeraldo, a pintora Heloysa Juaçaba e o xilógrafo Nauer Spíndola.
d) Globalismo tecnológico
Outro segmento forte nas artes visuais cearenses não é uma tendência estilística. É o resultado de um posicionamento cultural que se manifesta no acompanhamento e imediata absorção dos repertórios estéticos desenvolvidos pelos artistas dos pólos geradores da cultura das nações economicamente hegemônicas. Essa busca de sintonia com as tendências internacionais gera uma produção artística sofisticada, pouco alinhada com as aspirações de grande parte da população cearense, utilizando-se por vezes de mídias e suportes tecnologicamente avançados, provocando um distanciamento entre o que é desenvolvido pelos artistas e a capacidade de entendimento e consumo da produção, pelo povo.
Eclética, essa produção não mantém um padrão único, pelo contrário é plural e fragmentada tanto nos estilos, técnicas, como nas formas de apresentação. O importante é a sintonia com as mais novas tendências internacionais.
Os grupos de produtores mais ligados a essas propostas internacionalistas são compostos por artistas jovens oriundos das escolas superiores de artes visuais e em sua quase totalidade encontram-se situados na capital do Estado. Interessante perceber que, apesar de nossa defasagem tecnológica em relação aos centros hegemônicos, essas manifestações têm em nosso estado um nível semelhante à produção internacional.
A qualidade de nossa produção visual, se significante ou não, somente será percebida depois, na história.
* Roberto Galvão é artista plástico, mestre em História Social, pela UFC.