O pintor cearense Antônio Bandeira tamtém dedicava seu tempo à escrita. Escreveu muitos poemas e uma autobiografia. No ano passado, foi publicado um livro que reúne poemas e desenhos do artista, onde se pode perceber um pouco de sua força poética.
O crítico Clarival do Prado Valadares, no texto de apresentação da Sala Especial de Antônio Bandeira na II Bienal Nacional, realizada na Bahia em 1968, fala da existência de “uma impressionante integridade estilística e coerência temática através das fases figurativa e não figurativa” na obra do artista. Diz que Bandeira tem o seu vocabulário poético fincado nas raízes da sua infância: “O ambiente original do artista ou noutras palavras, sua vida desde a infância até a data de emigração do pintor de província em busca da metrópole, foi o núcleo poético na carga da memória”.
“Primeiro me deram de presente as nuvens, depois um sunga vermelho, e aí começou a nascer uma liberdade imensa. Infância girou em torno de árvore, era um sólido flamboyant vermelho, preto e amarelo que um dia se tornaria em quadro, ou melhor, em seqüência deles, em pintura, talvez. Nesse momento nuvens, mar e árvore já formavam um crepúsculo plástico, um nascimento ou uma morte, uma natividade“. Esse depoimento de Bandeira, dado a Milton Dias, em 1960, publicado em catálogo do Museu de Arte de Universidade Federal do Ceará, em 1961, é que provavelmente serve de base para o desenvolvimento da leitura do crítico. Mesmo ciente de que Clarival Valadares fala da poética na pintura, impossível é, para quem já leu alguns dos textos do pintor, não sentir que podemos tomar a afirmação de Clarival como também verdadeira, para os escritos de Bandeira. A infância e o flamboyant, a cidade queimada de sol e outras rememorações são a base das imagens estéticas manipuladas por Bandeira.
Onde não concordamos integralmente com o pensamento de Clarival é na limitação no tempo que serve de recordação e estímulo criativo para o artista. O limite não foi o abandono da província. Depois do cadinho, da fundição do velho Sabino, a vida continua e Bandeira vai colhendo flagrantes da vida como matéria-memória para estimular o seu fazer artístico: a mansarda, as mulheres, as prostitutas, os amores se não são poemas, ou melhor, se não se materializaram em mais poemas é por culpa do “comovente cheiro de tinta da profissão de pintor”, impedindo o nascimento de livros.
O flamboyant que havia na frente da casa de Bandeira, que ele passava horas e horas admirando, com a convicção que dele nasceriam seqüência de quadros, se transformou em livro nunca publicado. “Faço quentão de dizer que o livro nasceu da morte da árvore. Sempre é assim, sempre será assim até a gente tornar ao pó donde viemos. A vida é toda de trocas. Se dá uma coisa, se recebe outra. Se recebe uma, se dá outra. Nada é lucro: levaram meu flamboyant, me deram um livro. Este livro deveria ser uma pintura. Mas as vezes a gente não faz o que quer”.
Não sei se o livro realmente nasceu da morte do flamboyant, se os poemas nasciam da impossibilidade da pintura ou, ao contrário, da impossibilidade da pintura nasciam os poemas. O certo é que, em poemas ou quadros, Bandeira faz a sua arte de fragmentos da sua vida. Ele trabalha com a memória (evocações, visões, sonhos), transmudando instantes de sua vida em arte. Ele possibilita, tanto a seus leitores como a seus observadores, um verdadeiro mergulho no interior de si mesmo. Ele é sempre poeta, seja escrevendo ou pintando. O seu próprio texto comprova isso: “Encho meus dias e meus pensamentos fazendo um trabalho que alimenta, senão demasiadamente o estômago, suficientemente o espírito. Quero dar uma beleza gratuita, uma beleza extraída daqui e dali, trabalhada, sofrida, sentida, colaboração minha. Quero fazer um mundo novo, misturar o céu com a terra; dizer aos homens que eles são todos irmãos na batalha das raças, apontar a batalha visionária das grande massas urbanas; tirar uma pintura da natureza que já foi, que se está elaborando e que ainda vai prosseguir. Quero preparar terreno para a minha humanidade que virá depois, a humanidade feia que hoje sofre, presenteando-a com uma paisagem digna, uma cidade nova, uma árvore verde, um ser em germinação. Enfim, quero criar seres que não existam, misturar os reinos animal, vegetal e mineral, falar aos homens numa nova linguagem ou não falar língua nenhuma; enviar uma mensagem aos contemplativos”.
Não vejo o poeta Antônio Bandeira maior que o pintor, como afirmam alguns. Bandeira é simplismente um artista.