Hoje é um processo tão comum ver arte nas paisagens que imaginamos que esse é um processo natural, que todas as pessoas são tocadas automaticamente em sua sensibilidade ao observarem as formas, cores e texturas de uma paisagem. Na verdade o processo de sensibilização diante das paisagens é intermediado pela experiência artística. Poderíamos até dizer que são os artistas que nos ensinam a ver o mundo, fazendo-nos percebe-lo do modo como o percebemos, que são os criadores de imagens que nos conduzem pelos caminhos possíveis no entendimento da realidade que nos cerca.
No geral, uma paisagem que nos emociona não mexeria com os nossos sentimentos sem a experiência artística. O espetáculo da natureza e de todas as coisas não nos é dado apenas pelas suas existências. Ele não está disponível na natureza acabado, pronto para ser observado e sentido. A natureza não nos impõe o culto das suas harmonias ou desarmonias estéticas. A paisagem é uma invenção, um fato cultural. As montanhas e o mar, como os entendemos, são criações culturais.
Também é importante lembrar que a paisagem é um assunto ressente na história da arte no Ocidente. Apenas em meados do século XVI é que surge essa palavra para designar o gênero de pintura que registra os acidentes geográficos de um lugar. Somente no século XVII ela torna-se assunto independente na arte. Antes, a paisagem era somente um fundo onde se desenrolavam as cenas realmente importantes. E hoje? Na Arte contemporânea existe lugar para essa categoria? Os artistas atuais ainda fazem paisagens? A intenção desta mostra é discutir essa questão e demonstrar que sim.
Uma comprovação da existência de paisagistas na arte contemporânea é a produção de José Guedes, profundamente marcada por esse viés temático. Mesmo acreditando que não seria correto reduzir a apenas um tema a sua vasta e profícua produção, nem delimitar o seu campo de possibilidades expressivas, temos que reconhecer que ele é sobre tudo ou antes de tudo um paisagista e, indiscutivelmente, um mestre da paisagem atual, contemporânea, seja pelas técnicas que emprega, seja pelo tipo de abordagens que utiliza para elaborar a sua produção.
Em “O Mar”, obra composta de dezesseis painéis fotográficos em preto e branco registrando visões do céu e oceano com uma linha de horizonte artificialmente tencionada, ao retirar da paisagem a sedução da cor, Guedes leva o observador a perceber melhor em cada uma das imagens a riqueza de suas formas, tonalidades, o jogo das luzes e escuros, os volumes das nuvens e o desenho rendilhado das ondas. Somente um paisagista buscaria captar e saberia apreender a música das ondas e a dança das nuvens, que poderíamos dizer a alma do mar, através de imagens estáticas. A dimensão da obra nos faz sentir a grandiosidade da natureza em toda a sua imponência de formas. A perfeita retidão do horizonte, construída, artificial, dá um toque de mistério e encantamento. Assim como as similaridades e diferenças observadas na repetição seqüenciada dos painéis falam da passagem do tempo.
Sobre o mesmo assunto, a passagem do tempo, num perceptível contraponto à solução encontrada através da amplitude e suntuosidade do “O Mar”, Guedes conduz o nosso olhar para o espaço urbano e nos oferta a possibilidade de sentir a delicadeza da mudança temporal através de “Janela”, uma série de imagens, desta feita em cores e de pequeno formato, que registram uma visão espacialmente fixa de uma janela da residência do artista. O olhar é fixo, a visão é mutante fazendo o observador sensível sentir a brisa da passagem do tempo, viver uma nova experiência de percepção do tempo a partir leitura de uma mesma imagem. Embora distantes no tempo, na concepção, na técnica, em tudo, essas duas obras me remetem a Monet. Guedes, como o artista francês, sabe fazer uso do ambiente em que vive para elaborar a seu trabalho e dizer coisas, fazer arte.
Em outra obra, denominada “Água-cidade”, uma vídeo-instalação, o artista retoma o registro da visualidade possível de sua residência, mas desta feita para falar de outra coisa. Numa sala escura, dominada pela escultura sonora de uma forte queda d´água, é projetada uma cena urbana noturna. Como quem dorme, sutilmente a cidade se move. A paisagem de enquadramento fixo altera-se com o movimento dos carros e com a dança do acender e apagar das luzes. A primeira percepção é que o artista trabalha com o descompasso entre os estímulos sonoros e visuais. Ou será com a falta de sintonia entre a natureza e a cultura? Ou não será nada disso? Pode ser que não seja nada disso. Os artistas não têm obrigação nenhuma de preocuparem-se com essas coisas. O seu compromisso é expressar os seus sentimentos diante da realidade que se lhe apresenta. É o que acredito que José Guedes faz. Cristaliza suas percepções, os silêncios que escuta nas noites profundas da alma e busca democratizar estes seus sentimentos através de um exercício que aprendeu em casa e na vida com longas e fatigantes jornadas de corte, modelagem, cerzimento, costura e pesponto da sua arte.
No intrigante vídeo “Cinema”, de 40 minutos em projeção contínua, num ambiente sonoro composto por ruídos urbanos de buzinas, freios, burburinho de vozes humanas e trilhas sonoras instrumentais retiradas de clássicos do cinema, são mostradas imagens de uma câmera que percorre sem cortes uma rua sem fim, nem começo. Em pouco tempo o expectador percebe, apesar da imagem contínua, que os mesmos prédios, lojas, árvores e out-doors voltam a aparecer repetindo-se provocando um inexplicável estranhamento. O que se repete sempre está diferente. Apenas a arquitetura e as propagandas repetem-se, os outros elementos são mutantes: carros e pessoas. Qual o sentimento de deslocar-se numa rua que se repete e, ao mesmo tempo, não repete. Aqui novamente parece que o artista busca levar o expectador a sentir a relação espaço/tempo.
Seria essa preocupação com o espaço/tempo um alerta para fazer o expectador perceber melhor o tetradimensional mundo contemporâneo? Tenho um sentimento, que acredito verdadeiro, que me faz entender o mundo, até a Idade Média, como algo plano. Depois da Renascença, parece-me que passamos a ver o mundo de modo espacial. Agora, creio, temos um novo modo de perceber a realidade que nos cerca. Hoje, o mundo move-se, refaz relações, dissolve as certezas, desmancha-se num permanente reconstruir-se, muda formas de pensar através da aproximação de culturas antes distantes engendrando novos modos de compreender e ordenar o viver humano. Isso precisa estar na arte. A arte de Guedes nos alerta para isso. Sob o pretexto da paisagem nos é ofertada uma nova maneira de ver o mundo. O que Guedes nos propõe é mudar a forma de pensar e de perceber o mundo, o mesmo velho mundo de sempre.
Ainda nessa mostra do CCBNB temos a oportunidade de ver séries de imagens digitais que o artista tem trabalhado nos últimos anos e nunca foram exibidas no contexto que são colocadas agora. Um grupo é composto por imagens de árvores urbanas decepadas. Nos cortes estão espelhos que refletem a paisagem, o céu, árvores, prédios. O corte espelha a cidade.
Noutra série de “Reflexos”, imagens de asfalto molhado, depois de alguma chuva, com poças que refletem a cena urbana. É a natureza refletindo a paisagem construída. Na água a paisagem é naturalmente invertida.
Porque o artista criou essas imagens é um questionamento que faço? Seria a água da chuva a paisagem invertida? Seria a natureza o inverso das construções humanas? Seria o tronco decepado um poema visual? Será que, através da figuração do real, o artista conta, canta um lamento sobre a depredação da paisagem? Ou será o testemunho da derrota da natureza diante da cultura urbana, da insensibilidade do homem? Ou seria apenas mais um alerta diante do silêncio tumular, da indiferença social para com a natureza? Ou uma carta, uma crônica visual do cotidiano atual? A resposta ou respostas não se sabe. Provavelmente ela não está nas obras e não tem importância que não esteja. As possíveis respostas devem ser dos observadores e não do artista. Ele apenas nos conduz pelos caminhos possíveis da reflexão.
Nesse caminho de reflexões Guedes nos leva pelos caminhos da virtualidade, do engano, ilusão ou mentira na pequena série “Realidade”. As imagens apresentam impossibilidades: árvores vivas com parte de seus troncos lavrados. A madeira viva, ainda árvore e a madeira lavrada, pronta para a industrialização num mesmo contexto fazendo o espectador perceber a unidade indissociável da árvore com a madeira. Novamente o artista nos faz repensar na permanente luta entre a cultura e a natureza.
É importante que se perceba também que, no universo da arte, certas impossibilidades podem ser construídas e apresentadas ao espectador como “quase” realidade, mostrando verdades através de mentiras. Isso faz lembrar Fernando Pessoa. Guedes faz ver o que não existe para falar da realidade. Exibe imagens paradoxais pela ausência de sentido real atingindo em cheio o centro de nossas reflexões.
Na obra denominada “Calçada”, que poderíamos não reconhecer como inserida na categoria das paisagens por se apresentar como uma instalação de travesseiros vestidos com fronhas estampadas com a imagem de ladrilhos hidráulicos comumente aplicados nas calçadas de Fortaleza, arrumados em quantidade e disposição variável, também encontro o mesmo espírito das outras obras que reunimos nessa mostra. Uma instalação também pode ser paisagem. Ela traduz o espaço real, a paisagem noturna dos centros das grandes cidades brasileiras em linguagem estética e nos faz perceber as relações funcionais de uso desse espaço. As paisagens não são reproduções da realidade, são recortes simbólicos do real. São construções intelectuais que nos fazem pensar e entender o espaço em que vivemos. Esse trabalho Guedes também cumpre essa função. Ele nos faz ver a paisagem urbana noturna do centro de Fortaleza, as calçadas ocupadas por pessoas que se abrigam sob as marquises para dormirem. A “Calçada” nos mostra uma visão da Fortaleza e nos faz entender a cidade como ela é, embora esse entendimento não seja agradável, desperta emoções.
Uma outra obra que não poderia deixar de citar nesse texto, pela diferença técnica, material e formal de todas as outras apresentadas na mostra, é a “Pinus Elliottif”, que também pode ser entendida como uma instalação. Sua idéia/proposta é implantar um espaço expositivo, que pode ter dimensão variável, onde o artista instala sutis e frágeis composições, unidas apenas por clips, realizadas com uma mesma imagem de uma floresta das Serras Gaúchas e propagandas, convites e outras publicações que são recebidos na sua correspondência diária, dispostas nas paredes como quadros de sabor construtivista.
Sob as curiosas composições que, por si só possuem valor artístico, somos levados a pensar e perceber a relação da paisagem, das árvores, do Pinus Elliottif (fornecedor de celulose, a principal matéria prima do papel) com os impressos, com as nossas correspondências, conosco. Guedes nos leva a fazer a ligação da paisagem com o papel, da distante paisagem com o que nos chega diariamente e nos faz refletir sobre a nossa inconsciente cumplicidade.
Voltando ao início do texto. Existe lugar para as paisagens na arte contemporânea? Os artistas atuais ainda fazem paisagens? Indiscutivelmente José Guedes é um artista que se pode entender como contemporâneo, embora essa classificação, no meu entendimento, não seja útil e não tenha sentido. Todo artista se for verdadeiramente artista é contemporâneo. A arte não existe fora do espaço e do tempo. Hoje, ele exerce a função social de artista e elabora, como vimos, paisagens. E melhor, Guedes, numa perspectiva múltipla, propõe imagens, mais que imagens ele nos faz ver a paisagem do tempo atual e mais que paisagens ele nos mostra poemas visuais.










