Segundo Lélia Coelho Frota (1974), no Brasil, foi a geração dos românticos a primeira a manifestar interesse pelo patrimônio cultural de raízes populares. Depois disso, somente com os modernistas vamos encontrar demonstrações de interesse pelos artistas populares. Embora, no Nordeste, o Movimento Regionalista de Recife, liderado por Gilberto Freire, em 1923, também tenha dado algum destaque à produção artística popular, Lélia afirma que, apenas depois de 1930, quando os intelectuais brasileiros passaram a se preocupar com a realidade nacional foi que, realmente, se começou a “descobrir” os artistas “primitivos”: Cardozinho (1861-1947), em 1931; Heitor do Prazeres (1898-1966), em 1937; Chico da Silva (1910-1985), em 1943; José Antônio da Silva (1913-19??), em 1946; Vitalino (1909-1963), em 1947.
No Ceará, o primeiro a ser “descoberto” foi o pintor Francisco Domingos da Silva, em 1943, realizando pinturas oníricas nos muros das casas dos pescadores que habitavam a praia Formoza.
Perceba-se que a consciência da importância das artes que não seguiam os cânones da arte européia era um fato relativamente novo. Embora possamos afirmar que sempre existiram artistas “primitivos”, não existia a consciência do seu real valor. Foi apenas nos passos iniciais do modernismo que as vanguardas, na busca de novas fontes de inspiração reconheceram o valor estético das manifestações “primitivas”. Desenvolvia-se nas elites uma “consciência” sobre o valor das artes populares, talvez despertada, depois de 1930, pelos interesses e ações do governo brasileiro, na busca de elementos para a “construção” de uma cultura oficial apoiada em bases mais nacionalistas.
Todavia, apesar do elevado nível artístico e de serem muito apreciadas por Bandeira, Aldemir, João Maria Siqueira e outros artistas locais, as pinturas de Chico da Silva despertaram pouco ou nenhum interesse no público fortalezense. Ninguém lhe dava atenção, seu único cliente era Chabloz. E mesmo os intelectuais que frequentavam a residência de Chabloz, apesar dos elogios do pintor suíço, não davam a devida atenção aos trabalhos do artista caboclo. O escritor Artur Eduardo Benevides conta:
“Chabloz o elogiava como um primitivista muito bom. Nós sabíamos, mas não dávamos essa importância que ele tem e que só viria a ser reconhecida a posteriori. Ele era um artista simples e comum, sem essa projeção que viria a alcançar”.
O censo comum ainda não permitia o entendimento da produção de Chico da Silva como arte, o que, na verdade, somente ocorre quando Chico é premiado na Bienal de Veneza, na década de sessenta. Depois outros nomes também ganham reconhecimento: Graubem do Monte Lima, Antônio Albuquerque e, mais recentemente, Nogueira, Mundinha, Zé Pinto, Alice Rola, Chico Rabelo, Antunys e muitos outros.
Outro fato notável foi o surgimento, na década de sessenta, de um ateliê coletivo de produção de trabalhos inspirados no estilo de Chico da Silva. Capitaneado pelo próprio Chico, o ateliê congregava o esforço produtivo de uma quantidade de jovens aprendizes que o auxiliavam na exução de suas obras e que, posteriormente, vieram a produzir de forma autônoma. Entre eles merecem destaque Claudionor, Baba, Ivan de Assis, Garcia, Maria Augusta, Gilberto Brito; e os filhos de Chico, Chica da Silva, Roberto da Silva; e, ainda, Gerardo da Silva, neto do artista.










