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Curso de antropologia da Arte

O curso ministrado pelos professores Oswald Barroso e Paulo Ess terá carga horária de 30 h. aula, com aulas no período noturno no próprio Teatro José de Alencar. A idéia do curso é “discutir os fundamentos antropológicos do fazer artístico, na construção de uma percepção sensível e criativa, capaz de surpreender a poética da vida em suas mais diferentes formas. Pensar a arte a partir da antropologia, situando nossa percepção no tempo e no espaço, alicerçando-a numa cosmovisão abrangente e fundamentada”.

A justificativa do curso merece ser lida e arquivada por todos que se interessam por edução e arte. Vejam:

É um equívoco se pensar ou afirmar que o teatro, assim como as artes de modo geral, nasceram na Grécia. Na verdade, o teatro nasceu muito antes, junto com todas as artes, nas rodas em torno das fogueiras, nas cavernas, numa época em que os homens ainda eram deuses porque traziam em si o sopro do espírito divino. E assim eles se viam num mundo onde o universo era sagrado, onde tudo tinha seu lugar e um significado. Os homens se expressavam, se comunicavam incorporando, tornando-se como os outros seres, e ao incorporar eles narravam, construíam histórias, e ao construir histórias os homens ordenavam o mundo, faziam suas leituras do mundo. Mas nem tudo era ordem, ao lado do cosmos que era a ordem do mundo, sua ordem sagrada, na qual todos os serem tinham um lugar determinado por sua origem, existia o caos, que era a desordem necessária que permitia não haver apenas uma leitura e apenas uma possibilidade de ordem no universo. Era através do caos que o mundo se renovava ou é através do caos que o mundo se renova.

Fazer arte era exatamente isso, reinventar a ordem do mundo através de narrativas miméticas, narrativas onde as pessoas tinham a possibilidade de viver outras vidas, vidas de outros seres humanos ou não, e ao viver outras vidas, os serem humanos tinham outras experiências, podiam se colocar no lugar do outro, assim como podiam ver a si próprios a partir do outro, diferenciando-se do outro, se singularizando, individuando-se, enfim. Nesse processo o homem fazia seu conhecimento, educava-se, porque a arte ainda não estava apartada da vida, a arte era um predicado de todos os homens e todos os homens faziam arte. Quando pintavam nas cavernas, quando dançavam nos rituais, quando imitavam através de suas flautas o barulho do vento e da chuva, os homens faziam arte, todos eles.

Depois foi que a sociedade moderna, esquizofrênica, separou as artes e separou a arte da vida. Mas a arte precisa se reintegrar à vida. O trabalho do artista e do educador é fazer com que as pessoas vivam com arte, se eduquem com arte e façam a vida com arte. E a arte é isso, há uma ordem, uma leitura do mundo, mas há algo que escapa a todos os sentidos, a toda percepção inteligível. A tarefa da arte é exatamente revelar este invisível.

Esta era e é a missão dos xamãs, dos pajés, das mães de santo e de outros sacerdotes, em sociedades em que homens e mulheres se viam e se vêem como parte da natureza e, junto com os animais, plantas e outros seres, consideram-se na obrigação de preservá-la e renová-la. E porque se vêem como constituintes da natureza, se reconhecem, eles também, formas do divino, frutos do mesmo espírito que anima todas as coisas. 

A essa arte primordial, dessa época em que os homens ainda eram deuses, é que nós devemos estar atentos e termos por referência, se quisermos superar a esquizofrenia moderna, renovando o fazer artístico. Nas sociedades industriais modernas, a arte desviou-se de seu caminho mágico, deformada pelo mercado, pelas codificações, pelas ortodoxias, pelos modismos, sendo apartadas em várias artes, sub-artes, em vários subterritórios artísticos e também por haver sido apartada da vida. Daí a necessidade de renovação. E onde renovar a arte, onde banhá-la com a água nova da purificação? Nesse manancial original, nessa fonte primária da arte, que é a arte tradicional dos povos, a arte selvagem, no sentido de ser concebida como um prolongamento da selva, da natureza virgem, a arte feita nas comunidades, a arte que responde a uma necessidade de celebração e renovação da vida, da alegria e da integração do coletivo.

Daí a grande importância do estudo e da observação do que chamamos artes tradicionais populares, dos artesanatos, das culinárias, das festas populares, das romarias, dos folguedos (incluindo os reisados e bois, os dramas, os pastoris, as bandas cabaçais, os fandangos e marujadas, as danças de São Gonçalo, as capoeiras, os cocos), dos rituais das religiosos e demais manifestações das culturas populares.

Comentários neste artigo

  1. Nilde Disse:

    Caros participantes do Olhar Aprendiz.
    Estamos no mês de março e como um povo bom no quesito “comemoração”,temos uma data importante para festejar neste mês: dia 27 de março é o dia do teatro!
    Que tal aproveitarmos a data para oportunizarmos aos nossos educandos de arte/educação um olhar aprofundado no teatro feito na região?

    Lembro aos colegas de Baturité,Guaramiranga e Acarape que esta é uma boa hora para trabalhar com os dramas…

    Para quem não sabe onde encontrar material didático para dar uma boa aula de teatro este mês,vai uma Dica: A Associação dos Amigos da Arte de Guaramiranga possui um rico acervo de dvd’s,textos e fotografias da produção teatral nordestina.(Para fazer contato: agua@agua.art.br)
    Até mais.
    Nilde

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